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sexta-feira, 3 de abril de 2015

O PÊNIS



A passageira embarcou em meu táxi distraída, falando ao celular. Deu o destino da corrida e continuou ao telefone. Mais adiante, encerrada a ligação, ela bateu de leve no meu ombro e perguntou se era meu aquilo que estava sobre o banco traseiro. Eu estava dirigindo, não tinha como olhar, perguntei o que havia sobre o banco. Ela respondeu embaraçada:

-- Um… Hã… Pênis.

-- Um tênis?

-- Não, senhor, um pênis cor-de-rosa!

Tratava-se de um pênis de silicone, desses que se compra em sex shop. Eu não tinha a menor ideia de como aquilo tinha parado no banco do meu táxi, mas foi impossível evitar o embaraço. A passageira pagou a corrida com cara de nojo, como seu eu fosse um depravado, e se foi, não ousou tocar no pênis.

Peguei o objeto com o pano do carro para análise. Parecia limpo, pelo menos. Na verdade, tinha até uma etiqueta com o preço, parecia sem uso. Admirei por um momento a peça: a forma, o tamanho, o acabamento realístico. Não havia como negar a qualidade da obra. Passado esse instante de contemplação artística, joguei o negócio no porta-luvas e segui com a vida.

Mais tarde, uma mulher me ligou dizendo que tinha perdido um objeto seu, achava que tinha ficado no meu táxi. Ela tinha requisitado a corrida pelo aplicativo, tinha o número do meu telefone registrado no histórico. Ficou aliviada quando falei que tinha encontrado o “produto”. Anotei seu endereço, liguei o taxímetro e fui até lá.

Era um sobrado antigo na Cidade Baixa, desci do táxi e toquei a campainha. Foram momentos de apreensão: não tinha com o que enrolar o objeto, fiquei ali, na calçada com o pênis rosa na mão, torcendo para que ninguém passasse. A mulher  abriu a porta. Uma morena alta, lembrei da corrida dela assim que a vi.

Ela me tratou com a naturalidade de quem recebe uma pizza. Pegou seu pênis e pagou a corrida com uma boa gorjeta. Nada mais. Brindou-me com um sorriso sincero e fechou a porta.

Restou minha boca aberta na calçada vazia da Cidade Baixa.

Fonte: TaxiTramas